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Campo nativo - aliado ou inimigo?


O campo nativo é extremamente importante para a pecuária do Rio Grande do Sul, sendo riquíssimo quando se trata de diversidade de espécies. Estima-se que existam cerca de 450 espécies de Poaceae (gramíneas) e 150 espécies de Fabaceae (leguminosas), sendo estas extremamente adaptadas ao clima e pouco susceptíveis a doenças, se tratando de uma grande vantagem evolutiva do campo nativo. A produção, sob condições naturais, é muito variável, porém estima-se que pode ser de até 6 t MS/ha/ano em condições naturais.

Com o passar dos anos, o campo nativo vem perdendo espaço para as grandes culturas e consequentemente, para a implantação de espécies forrageiras cultivadas. Atualmente, ele ocupa cerca de 10% das áreas do estado do Rio Grande do Sul, representando cerca de 3 milhões de ha.

Esta perda de espaço do campo nativo, pode ser atribuída a alguns fatores, onde podemos destacar entre eles, o aumento de áreas destinadas à lavoura e a baixa produtividade dos campos. Com a necessidade de maiores extensões de áreas para lavoura, elevou-se o valor do arrendamento tornando muitas vezes mais atrativo, comparado com uma pecuária extensiva, em algumas vezes, até pouco lucrativa. Outro ponto atrelado a lavoura é que com o cultivo convencional do solo durante anos tivemos drástico impacto no campo nativo, alguns pesquisadores acreditam que só exista campo naturalizado, devido a grande exploração, não existindo campos virgem de preparo, devido a perda de importantes espécies. Nesse sentido, muitas vezes era possível encontrar campos com baixa produtividade e pobres, associando ainda ao baixo suporte nutricional a esse importante recurso, o campo nativo. Esses fatores auxiliaram para a diminuição dessas áreas, porém ao decorrer será relatado alguns pontos para manter e até aumentar a produtividade deste.

O segredo para uma alta produção de forragem no campo nativo, bem como sua utilização sem degradar as áreas, está no manejo implementado, sendo o diferimento uma técnica importante. Esse manejo consiste em retirar os animais da área, de acordo com a exigência do campo e aliando com a necessidade do produtor, gerando um descanso e auxiliando no aumento de produção e queda de sementes de espécies nativas. Desta maneira, melhora-se a cobertura vegetal pois aumenta-se o índice de área foliar e, consequentemente, há um maior aproveitamento de energia luminosa, além de proteger o solo contra períodos adversos como a estiagem, contando também com a maior produtividade de massa de forragem. Além disso, a correção dessas áreas também aumenta a possibilidade dessas espécies se manifestarem. Cabe salientar que devido a extensa utilização dessas áreas com uma taxa de lotação muito alta, selecionamos espécies mais resistentes ao pisoteio, mas nem sempre de melhor valor nutricional, nesse sentido, outros manejos importantes serão descritos ao longo do texto.

Uma característica muito importante, é que no campo nativo encontramos diversas espécies perenes, as quais possuem sementes pouco viáveis, estas espécies podem ser perdidas caso morram, visto que não se reproduziram. Isto pode ocorrer quando acontece um pastejo excessivamente intenso ou quando utiliza-se na área grades para fazer algum preparo, e até com a ação de herbicidas se não utilizado corretamente. A maior garantia que temos da permanência destas, é um manejo adequado, o que torna nosso campo nativo mais vigoroso.

Pode-se pensar que o diferimento do campo nativo serve apenas para aumentar a produção de forragem, para posteriormente entrar com maior carga animal na área; porém, esse manejo impacta em diversos pontos, sendo então essa uma visão distorcida da realidade. Além dos benefícios já trazidos, suas vantagens não param por aí. De maneira geral, vimos que há um aumento no número de perfilhos das espécies, aumentando assim as condições para maior produção. Com isso, os rizomas e raízes das plantas também irão se beneficiar, tornando-se mais vigorosos, mantendo assim maiores reservas nutricionais e deixando o solo mais aerado, que irá contribuir para o aproveitamento da água.

Ressalta-se também a colaboração que o diferimento traz ao controle de parasitas presentes nos campos. De acordo com alguns autores, cerca de 5% dos vermes são endoparasitas, ou seja, parasitas internos e 95% ficam presentes no campo, necessitando de animais para se hospedarem e continuarem seu ciclo de vida. O carrapato, problema pertinente em algumas regiões do Rio Grande do Sul, é um ótimo exemplo disso. Trata-se de um ectoparasita, com ciclo de 21 dias no animal, onde após esses dias ele cai ao solo para desovar. Porém, após a desova ocorrer, esses carrapatos gerados necessitam do hospedeiro para continuarem seu ciclo. Dessa maneira, áreas que estão passando por diferimento, não irão ter os hospedeiros necessários para dar continuidade ao ciclo de vida de alguns parasitas, diminuindo assim a infestação presente no campo.

Além de todos os benefícios já citados e que tornam o campo nativo uma excelente ferramenta, é válido ressaltar o custo desta ferramenta, que se torna muito barata quando comparada a outras opções, como espécies exóticas de verão, as quais são implantadas, a relação do custo com a produtividade é verdadeira em parte, espécies implantadas são de alto custo, porém entregam uma alta produtividade, enquanto o campo nativo possui uma produção mais baixa, a um custo mais barato. Porém, este quando favorecido através de práticas agronômicas que serão citadas, possuirá uma produção de forragem muito boa, com um custo e risco baixo, este baixo risco pode ser atribuído a diversidade de espécies as quais resultam em uma pastagem mais rústica e resistente a seca, sendo este um fator limitante para muitas pastagens cultivadas, visto que corriqueiramente a seca tem nos atingido.

Dessa maneira, vemos que existem diversos manejos e práticas que podem ser adotadas, para que o campo nativo se torne um aliado e que traga rentabilidade e segurança ao sistema. Se passarmos a tratar as áreas de pastagem natural, com a devida importância como destinamos às pastagens cultivadas e as áreas de lavouras, veremos que estas se tratam de áreas produtivas, rentáveis e de menor necessidade de investimento monetário, visto que se proporcionarmos as condições adequadas, através de manejos como roçadas, que diminuem o número de espécies que não são de interesse, conseguimos aumentar a luminosidade e diminuir a concorrência. Já a correção, possibilita a germinação de espécies de interesse, visto que a maioria de espécies indesejáveis, se manifestam com o PH do solo baixo, um exemplo clássico disso é o gravatá. As adubações, possibilitam maior aporte nutricional para as plantas que ali estão estabelecidas, assim o campo nativo terá produção de forragem de boa qualidade, bem como de sementes viáveis, visto que ativamos o seu rico banco de sementes, para perpetuar as espécies que ali estão presentes. Implantando estratégias como o diferimento de campo nativo, o ajuste de carga animal e adubações, as pastagens naturais terão condições para aumentar sua produtividade com um menor custo se comparada as pastagens cultivadas, visto que não necessitam de investimento com manejo de solos, semeadura e dessecação das áreas.


Se possuímos um recurso natural, tão rico em espécies e produção, porque não investir e implantar isso no seu sistema? Tornando o campo nativo um aliado da produção! Vem com nós que podemos te ajudar a tornar isso possível!


Fonte:

https://www.grupocultivar.com.br/artigos/diferimento-de-campo-nativo


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